Estou fora do Facebook, mas estou vivo!

Alguém já me disse que estar “fora do Facebook” é uma situação análoga à indigência social. Claro que isso era uma brincadeira, mas não deixa de ter um fio de razão esta sentença. A rede social bilionária de Mark Zuckerberg tem (em números do ano passado) mais de 1,15 bilhão de usuários e um volume bilionário de curtidas, compartilhamentos, postagens de textos breves e imagens são realizados diariamente. Só o “curtir” é clicado quase 5 bilhões de vezes por dia!

São números superlativos, espantosos. Por isso podem brincar com alguma base de seriedade sobre a situação da indigência, mas nem tudo está perdido para os demais bilhões de terráqueos desconectados do Facebook, afinal há vida fora do mundo zuckerberguiano. Eu mesmo posso atestar isso, pois sou um ser desconectado voluntariamente do Facebook e confirmo que sair da rede social não é algo equivalente a um suicídio social ou virtual ou mesmo a qualquer manifestação de anulação pessoal e atitude autodestrutiva. Sair do Facebook é apenas sair do Facebook!

Tive uma relação intensa com o Face (assim os íntimos tratam o site) e fazia minhas postagens, compartilhamentos, curtidas e passava um tempo diante daquela janela azul e branca diariamente. Eu cheguei a ter dois perfis: Um para “o grande público”, com coisa de 4 mil contatos e o outro era intimista, pois eu só mantinha por lá pessoas com quem eu convivia de forma mais efetiva (uma quantidade de gente muito menor que a multidão do primeiro). O fato de ser professor e de ter uma convivência cotidiana com muita gente em decorrência da profissão já possibilitavam que eu fosse um perfil “popular” por uma questão meramente prática: Uma boa quantidade de gente me identifica porque me conhece (os níveis de “conhecer” aqui são muito variáveis nesta situação, pois eu nem lembrava ou nem mesmo sabia quem eram muitos de meus “seguidores”). Ter alguma atuação na blogosfera ou em outros meios virtuais também agregavam contatos e isso foi inflando cada vez mais meu perfil, me fazendo ver diariamente inúmeras notificações do Facebook e então me deu um cansaço e criei meu “perfil light” para pouca gente. Mas a solução virou mais um problema, pois eu acabei tendo que lidar com dois Faces ao mesmo tempo.

Eu tinha acesso através de meus notebooks e de meu smartphone e comecei a ser controlado pelo Demônio Azul de Zuckerberg e ficava conferindo o Face várias vezes ao longo do dia, pois a facilidade de conexão era grande, afinal, meu celular estava geralmente à disposição. Então passei a me relacionar com pessoas, me informar sobre coisas triviais e sem importância, rir, me irritar também e ver o noticiário pelo Facebook. Postava fotos, compartilhava links e respondia com bastante frequência aquela perguntinha sobre o que eu estava pensando.

Comecei a questionar se eu fazia parte da rede social ou se o Facebook fazia parte de mim e isso foi o ponto crucial para o início de meu processo de desintoxicação. Como costumo fazer em várias circunstâncias, resolvi radicalizar e deletei o meus perfis recentemente. Devo ter perdido muitos conteúdos que foram postados por lá e certamente deixei de postar muitas outras coisas, mas não estou ansioso ou aflito por causa disso. O exílio virtual parcial – pois estou aqui, por exemplo – não tem causado traumas e o tempo de Facebook tem sido revertido para outros fins que me dão bastante satisfação, pois parei para ler por mais tempo, ouço mais música, vejo mais filmes e agilizo mais minhas atividades cotidianas.

Meu alívio aumentou depois de verificar que a ânsia por conexão com o Facebook tem sido abordada como um comportamento causador de estresse.

Hoje (ontem, na verdade, pois o jornal de domingo está nas ruas já na tarde de sábado) saiu no JC uma matéria justamente sobre a possibilidade de vida fora das redes sociais e dei um depoimento publicado na matéria (cujo link é esse aqui).

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Fracassos na educação do eterno “País do Futuro”

Boa parte (“má parte” seria a expressão mais adequada) dos políticos alimentam uma perspectiva megalomaníaca sobre o Brasil quando falam sobre aquilo que dizem que poderão fazer para que nosso destino como “País do Futuro” vire realidade um dia. Apegam-se aos seus marqueteiros de plantão e saem por aí vendendo a si mesmos como salvadores e guias que nos levarão a um estágio de pleno desenvolvimento e progresso social e para isso se valem de muitos discursos e jogos de cena. Quem governa e quer continuar governando mostra imagens de obras, expõe números, colhe depoimentos amigáveis e transforma tudo em atração publicitária para convencer as massas. Quem não governa e quer governar apresenta planos, promessas e muita conversa bonita – ou não – para também obter a confiança (os votos) do povo através de campanhas com muita propaganda forçada. Geralmente os dois lados (independentemente da quantidade de candidatos) possuem mais pontos em comum em torno de suas condutas e práticas do que discordâncias concretas em termos de princípios e ideias, embora não muitos entre os eleitores percebam isso.

Os contendedores que disputam o poder são unânimes – ao menos retoricamente – ao bradar que o Brasil tem um imenso potencial e que está destinado ao êxito, embora creiam (ou querem que creiamos) que serão os grandes responsáveis pela condição do Brasil ao sucesso triunfal e definitivo. Mas aí nos deparamos com um patamar concreto e real sobre nossas possibilidades e condições de conquistar as posições e as situações prometidas pelos políticos.

Este panorama real e sem marketing que compromete nossa reputação já histórica – e já ridícula – de país ascendente em direção ao “mundo desenvolvido” é a situação da educação brasileira. Mais uma vez – e isso é rotina – o Brasil figurou em péssima situação no Pisa, que é a mais relevante avaliação internacional de educação e que é realizada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). São avaliados 65 países e ficamos na 57ª posição, sendo nosso melhor desempenho desde o início da avaliação, em 2000. O Pisa demonstrou que a grande maioria de nossos estudantes não apresentam aprendizagem comprovada de conteúdos e não expressam o domínio de habilidades que deveriam ser atingidas em suas trajetórias educacionais.

A Fundação Lemann, ONG que atua em pesquisas educacionais, apresentou dados alarmantes ao indicar que apenas 8% dos estudantes que ingressam no ensino médio estão adequadamente preparados em matemática e português (disciplinas que são imprescindíveis também para a aprendizagem de todas as demais) e que há grandes discrepâncias entre os níveis medidos de aprendizagem conforme a situação social dos estudantes (conclusão também obtida pela OCDE através do Pisa). Daí temos a dramática situação na qual nossos estudantes aprendem pouco e que os pobres aprendem ainda menos nas escolas públicas, que são diretamente subordinadas aos governos em todas as esferas. O efeito em cadeia dessa situação causa um estrago incrível e não criemos aqui ilusões quanto à progressão do preparo insuficiente, pois mesmo no ensino superior a situação não é boa. Exemplo disso é o levantamento feito em 2011 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) que indicou que os estudantes universitários das instituições federais leem apenas de 1 a 4 livros por ano e quase não frequentam as bibliotecas de suas universidades. No caso de instituições privadas de ensino superior também são evidenciadas flagrantes circunstâncias de precariedade na formação prévia dos universitários, o que tem efeito sobre o decorrer de suas formações acadêmicas – que em muitos casos também é precária por deficiências dos próprios centros de ensino.

Estes números e o panorama crítico superficialmente abordado aqui ilustram que o Brasil é um verdadeiro “gigante com pés de barro”, citando aqui a oportuna expressão bíblica. Este gigantismo nas expectativas de progresso não passa de delírio quando nos confrontamos com a crua realidade de nossa educação e seus resultados. Esta situação ocorre com políticos usando a educação como plataforma para autopromoção ou como elemento de discurso enquanto sequer temos a educação como tema central em campanhas eleitorais porque talvez o eleitorado também não se dê conta da importância desta questão. Má gestão na educação pública não derruba governantes mesmo considerando seus efeitos imediatos e de médio e longo prazo e além disso conduzir políticas educacionais sólidas também não é prioridade deles, pois vemos que esses resultados espantosos ocorrem sem que nenhum responsável por nos governar apareça publicamente para expor que tem culpa sobre essa situação. Vemos escolas deterioradas, desvios de verbas, adoção de políticas ineficientes, perspectivas pedagógicas indigentes e muita maquiagem em desempenhos como elementos que integram o quadro de descaso absoluto sem a provocação de um escândalo público ou a mobilização de atenções e providências efetivas.

O Brasil precisará avançar muito na educação para progredir como país, mas outro problema desponta em nosso horizonte: Podem faltar professores. O fato é que a carreira docente no Brasil é um retrato vívido da crise educacional, pois temos aqui quase que como um direcionamento sádico e catastrófico aviltar o magistério e colocar os professores em condições totalmente desfavoráveis seja pela precariedade no exercício cotidiano de suas funções quanto pela falta de valorização. Dados do próprio IBGE indicam que professores ganham pouco mais da metade da média salarial de outros profissionais com ensino superior em diferentes áreas, ou seja, trata-se de uma desvalorização evidente e inquestionável, apesar dos discursos dos que já governam e dos que querem governar em outros patamares. Resultado lógico dessa desvalorização é a acentuada queda na procura por cursos de licenciatura e a crescente evasão verificada nos cursos que formam professores, circunstância já verificada pelo Ministério da Educação.

Uma das incontáveis provas da pouca importância dada à educação brasileira é o fato de que desde o final de 2010 tramita no Congresso Nacional o novo Plano Nacional de Educação, que contém dispositivos normativos e também 20 metas que precisariam ser cumpridas até 2020. Uma dessas metas (a 17ª) indica textualmente: “Valorizar os profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência deste PNE”. Eu não tenho nenhum motivo para acreditar na consolidação dessa meta. Ah, mas tem a grana dos royalties de Pré-Sal, não é? Puxa, que sorte que tenhamos descoberto petróleo abaixo das profundezas oceânica para que a educação passasse ser a vista como destino de investimentos massivos!

Dei um depoimento dia desses no jornal O Globo como parte de uma série sobre a crise docente no Brasil e repito aqui parte do que foi publicado por lá: “Muita gente acha que professor trabalha só por amor, mas chega uma hora que os salários geram desencanto. Tenho a sensação de que todos à minha volta progridem nas profissões, enquanto na educação nada muda” (a publicação original está aqui e seque o tom de outro depoimento meu que o JC publicou em 2010 – aqui).

Essa minha conclusão está associada a muita coisa que vi e já vivi na docência pública. Claro que vivencio muitas experiências únicas e fabulosas, vendo o progresso de estudantes que, apesar da sabotagem da qual são vítimas, conseguem passar por cima do descaso e das tentativas do próprio Poder Público de fazer com que fracassem ao não lhes garantir um ensino de qualidade. Vejo também o trabalho de outros colegas que me inspiram, mas não vejo governos fazerem muito mais do que encenações e promoção de artifícios sem essência, manipulando dados e forjando dados sem sustentação por meio de mecanismos que promovem mais erros e nos distanciam de soluções. Sim, estou tentando trilhar um caminho em direção à saída da docência e vejo o quanto tantos estão também fazendo isso. Só em minha escola testemunhei nos últimos quatro anos as saídas de sete professores que simplesmente pediram exoneração e abandonaram o magistério na rede estadual que está entre as que pagam os piores salários de professores no Brasil, apesar do governador que quer ser presidente ter prometido antes de eleito que acabaria com essa situação (o que ilustra o que escrevi sobre políticos no início do texto).

Quando percebermos que o fundo do poço está vários andares acima de nós talvez a educação seja uma pauta de interesse geral, exigida pelo povo nas ruas em protestos de verdade e não nestas encenações carnavalizadas que foram apresentadas como ações de revolta coletiva que vi em 2013. É possível que a partir daí os que governam e os que querem governar passem a agir responsavelmente, do contrário os netos de nossos netos continuarão repetindo o mantra herdado da ditadura militar: “O Brasil é o país do futuro”.

O trabalho enobrece o homem?

“O trabalho enobrece o homem” – Este ditado tão enaltecido, esta frase de efeito repetida orgulhosamente, ressalta a capacidade que tem o trabalho de engrandecer o indivíduo em muitos de seus mais pronunciados valores. Então além de prover as condições materiais de subsistência, o trabalho contemplaria também a dignidade do trabalhador e se converteria numa verdadeira e orgulhosa dádiva por ele desfrutada, uma dádiva que transforma a natureza e gera riquezas – ainda que estas riquezas sejam muitas e muitas vezes sejam desfrutadas por outros.

Esta lógica floreada de dignidade do trabalho não é uma unanimidade. Para alguém como o filósofo Bertrand Russell isso não passa de uma mera ilusão convenientemente orquestrada e empregada para ludibriar os trabalhadores ao longo de várias gerações. Segundo ele essa ideia é mesmo uma pantomima ideológica patrocinada pelas elites, pois estabelecer este tipo de percepção serviu exatamente para aplacar os pobres, isto é, foram os ricos quem pregaram o discurso da dignidade do trabalho para os pobres “enquanto tratavam [os ricos] de se manter indignos a respeito do mesmo assunto”. O trabalho enobrece, mas os nobres não trabalham – ou pelo menos não realizam a mesma natureza de trabalho a qual se dedicam os pobres. Então emerge daí uma distinção das atividades desempenhadas pelas classes sociais.

Desde os tempos clássicos do florescimento da cultura ocidental o trabalho veio passando por construções e interpretações variáveis. Se no período pré-socrático (VI a V a.C.) havia uma noção que associava de maneira harmoniosa técnica e especulação abstrata, esta visão não durou através dos períodos seguintes. Era comum na Grécia de então que as classes ligadas à manufatura, ao artesanato e atividades comerciais tivessem respeito social e até detivessem o poder nas polis, as cidades-estados que caracterizaram a experiência política grega. Sólon, um grande reformador das leis em Atenas, chegou a estabelecer que nenhum filho teria obrigação de garantir a subsistência e o amparo a seu pai na velhice se este não houvesse lhe ensinado um ofício, indício que demonstrava a importância que representava ter uma profissão e indicava a relevância do trabalho na sociedade grega naquela época.

Um conflito conceitual em torno do trabalho foi travado ainda na Grécia: de um lado debatia-se a noção de que o trabalho deveria ser valorizado por ter relação com o conhecimento, de outro lado, contudo, o trabalho era desvalorizado como uma atividade inferior relativa à sua prática física irrefletida e mecanizada. A segunda perspectiva acabou prevalecendo e a técnica se afastou da abstração, então o trabalho físico, em consequência, se divorciou do trabalho intelectual.

A escravidão e o emprego de cativos no desempenho dos trabalhos físicos foi o grande fator a deteriorar o valor do trabalho para a cultura ocidental. Deste modo, o trabalho físico passou a ser desempenhado por indivíduos dos estratos sociais mais pobres e inferiorizados enquanto os trabalhos de natureza intelectual couberam a quem estava em condições de dirigir a vida social, política e econômica das sociedades. O que se verificou em Roma após a consolidação de suas conquistas no século II está também relacionado a este fato, pois lá a noção positiva de “labor” foi suplantada pela lógica aviltante da noção romana de “trabalho”, termo que deriva de um instrumento utilizado para dar tração a bois empregados no transporte de cargas, o “tripalium”. Esta noção sobreviveu aos tempos e a separação entre os tipos de trabalho também permaneceu viva.

Passando por esse brevíssimo acompanhamento da modificação de postura em torno dos tipos de trabalho, mais noções podem ser conferidas a respeito dessas distinções. Há aquelas atividades que possuem um caráter mais operacional e físico, atividades que o antropólogo e economista Thorstein Veblen classificou como industriais e que Bertrand Russel considerou como um tipo de trabalho que “modifica a posição dos corpos na superfície da Terra ou perto dela”. Estes trabalhos físicos, repetitivos e corriqueiros, enfim, trabalhos que não exprimem proeza ou imponência são executados pelos pobres, a maioria da massa trabalhadora. O segundo tipo é “o que manda que outras pessoas façam o primeiro”, trabalhos que abrangem atividades governamentais, militares, religiosas, de controle e exploração de propriedades, ou seja, atividades que se destacam e se distinguem dos trabalhos físicos ordinários. O segundo tipo das atividades é encarado como sendo composto por ofícios nobres, dignos, escapam à vulgaridade própria das atividades industriais mesmo com a falaciosa pregação de que “o trabalho enobrece”. E não é casualidade que o primeiro tipo de trabalho seja “desagradável e mal pago” enquanto o segundo seja “agradável e muito bem pago”, como mais uma vez distingue Bertrand Russell. Esta distinção é muito bem difundida tanto entre a elite quanto entre a classe trabalhadora.

O camarada russo I. Kudriavtsev achava que a contradição entre trabalho físico e intelectual era um fenômeno histórico e que ela havia surgido com a divisão da sociedade em classes, concordando então com o que já havia sido observado tanto por Friedrich Engels quanto por Veblen (que não era comunista). Acrescentou ainda que o desenvolvimento do capitalismo acentuou esta contradição, considerando que a força de trabalho, nas condições criadas e impostas pelo capitalismo, passou a ser a mercadoria mais explorada e usurpada. Kudriavtsev, um stalinista inveterado, acreditava que o socialismo iria superar a diferença entre o trabalho físico e o trabalho intelectual e achava que seu líder – Stalin – estava dando progressivos passos neste sentido (essa ideia era defendida em seu artigo “Pela supressão da diferença essencial entre o trabalho intelectual e o trabalho físico”, publicado em 1955). Argumentou que a base para a existência desta distinção havia sido combatida, isto é, a propriedade privada dos meios de produção havia sido seriamente derrotada na URSS, portanto, impondo uma nova relação de produção sem que existisse a exploração injusta da força de trabalho. Além do mais, observou que a educação havia sido democratizada sob o regime socialista e que os intelectuais da nova ordem soviética integravam também uma nova camada intelectual proveniente dos meios operários e camponeses – “intelectuais do povo”. Estes “trabalhadores intelectuais” não discriminavam nem se opunham aos trabalhadores manuais, ao contrário, estavam todos unidos pela supressão da noção de desvalorização do trabalho, que se tornou um “ponto de glória, de valor e de heroísmo”.

Também sob o regime soviético houve a evocação do trabalho como agente valorizador do homem. O trabalhador virou herói, mas, apesar do discurso, continuava a haver distinção entre trabalho intelectual e físico. A forte importância da burocracia do PC soviético era preponderante e sua composição básica era de intelectuais. Mesmo considerando a existência das kokhozes e das sovkhozes onde os trabalhadores atuavam de maneira mais integrada e onde sua força de trabalho era revertida em benefício coletivo, não se pode negar que uma elite intelectual continuou a ter mais influência e participação no comando da URSS, afinal, alguma contradição entre o trabalho físico e intelectual continuou a existir, ainda que sob novas condições e orientações políticas. Isso sem esquecer dos infernais gulags, campos de trabalho forçado (sim, trabalho como punição!) nos quais criminosos comuns e  inimigos do regime penavam sob péssimas condições. Mesmo diante de toda a retórica, lá entre os comunistas soviéticos também prevaleceu a diferença entre os tipos de trabalho e o discurso repetido como uma mantra segundo o qual o trabalho enobreceria o homem.

O sentido de contaminação moral do trabalho é retratado por uns críticos como evidente reflexo da divisão das classes sociais e do estabelecimento dos padrões de valorização e dignificação dos indivíduos que orbitam nestas classes. Mas se há glória no ócio (neste sentido como o não exercício de atividades físicas pesadas e tidas como indignas), então o que seria do discurso de que o trabalho enobrece o homem e de que a ociosidade é mãe de todos os vícios? A preguiça, afinal, não é um pecado capital? Há possibilidade de defender o ócio para quem está fora da classe ociosa? Pois, como já defendeu Bertrand Russel, este tipo de noção que visa ressaltar o trabalho e dar um caráter negativo à ociosidade não é sincera já em sua origem, pois ela parte de quem, na ociosidade, nutre-se do trabalho alheio. Paul Lafargue e seu posicionamento comunista, independente de sua condição de genro de ninguém menos que Karl Marx, defendeu os trabalhadores exatamente do trabalho. Segundo ele, os desvalidos se encontram atormentados por uma espécie de loucura: “Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, economistas, moralistas, sacrossantificam o trabalho”. Loucura! Eis que mais uma possibilidade nos surge: o domínio da sanidade dos ociosos prevalece sobre os loucos trabalhadores? Segundo Lafargue isto é absolutamente verdadeiro. Sua conclamação pela ociosidade contra a loucura do trabalho acabou tomando uma dimensão divina, pois ele tomou um exemplo insuperável: lembrou que o próprio Deus decidiu descansar eternamente após seis dias de trabalho na criação do mundo, num supremo exemplo de preguiça.

Bertrand Russell acreditava que o ideal da vida não seria o desintegrar-se completamente pelo trabalho, mas o desfrutar da liberdade de momentos nos quais se estaria completamente livre do trabalho. Defendeu a classe ociosa, apesar de se manifestar contrário ao sentido de injustiça social que fez “diminuir enormemente sua excelência”, porque ela contribuiu notavelmente para construir o que se entende por civilização e mais: “Ela cultivou as artes e descobriu as ciências, escreveu os livros, inventou as Filosofias, aperfeiçoou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada a partir de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria saído da barbárie”.

A idealização de uma vida livre e ociosa, sem a torturante obrigação do trabalho, sempre foi projeto para poucos. O teatrólogo checo Karel Capek vislumbrou em sua peça Rossum’s Universal Robots, de 1920 (da peça originou-se o termo “robô”), um ambiente livre do trabalho, que era realizado por máquinas concebidas à imagem e semelhança dos homens.

Nada mais agradável que imaginar um mundo sem o trabalho, esta antítese de liberdade. Contudo, o estágio no qual vivemos, com suas exigências sobre nossos meios e condições de subsistência, requer que tenhamos o trabalho como fonte. A tecnologia tem atuado no sentido de viabilizar mais conforto e melhores condições de vida ao mesmo tempo em que reduziu postos de trabalho, tendo o desemprego estrutural como um de seus mais notáveis subprodutos. Para um desempregado não importa se sua força de trabalho será explorada nem se a jornada de trabalho irá lhe privar de tempo que seria ociosamente desfrutado para nos livrar da barbárie. A promessa de libertação do trabalho não deixa de ser contraditória e paradoxal independentemente se proposta por marxistas ou neo-hedonistas.

Um reajuste salarial indecente e o SINTEPE com seu sindicalismo errante

Em 2007 Eduardo Campos estava em seu primeiro ano de mandato e chegou ao governo após prometer reverter imediatamente a situação na qual Pernambuco figurava como estado no qual era pago o pior salário do Brasil para professores entre todas as redes estaduais. O PT estava no governo e também no Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (o partido participa da direção desde a fundação do sindicato) e uma greve de professores foi deflagrada contra tudo e contra todos, inclusive contra a vontade da própria direção sindical. Foi uma greve tensa, pois a categoria estava sozinha e enfrentando os sindicalistas e o governo ao mesmo tempo. Enfrentava o governo por razões óbvias e a diretoria do SINTEPE era enfrentada diante das seguidas manobras para encerrar a greve sem nenhum avanço e tentando assegurar a boa relação com o governo (membro da direção do sindicato até falava abertamente que existira uma “lua de mel” entre o governo e o SINTEPE).

Foram 54 dias em greve e em seu final o saldo foi lastimável em termos de conquistas. Um aumento de 5% foi o máximo que a categoria recebeu.

Findo o movimento, fui convidado para participar de um debate na Rádio Jornal representando o movimento de oposição ao SINPTEPE e o grupo A Alternativa. Estavam lá o presidente do sindicato e sua assessora de imprensa e uma representante do alto comando da Secretaria de Educação também acompanhada por uma assessora (fui acompanhado por um colega que nem entrou no estúdio). Durante o debate tanto o sindicato quanto o governo se congratulavam e eu me via numa situação esquisita. Na ocasião, o presidente eterno do SINTEPE afirmou que os 5% eram uma conquista e o já reduzido crédito que eu mantinha em relação à direção sindical acabou de vez.

Agora o mesmo governador, que agora não tem apoio do PT, anunciou um aumento salarial para os professores. O reajuste é de 8,32% e é patético, insuficiente e vergonhoso de qualquer forma. É um reajuste amparado numa manobra que burla o real fundamento da correção dos salários conforme orientação federal.

O presidente do sindicato, que já achou uma conquista um aumento menor anteriormente, aparece para bradar que o novo reajuste é um “golpe” (Via JC Online). Sim, concordo com ele, é mesmo um golpe – assim como foi um golpe a benevolência do SINTEPE em relação ao governo após a greve de 2007 vendendo como positiva uma situação vergonhosa. E é certamente interessante verificar essa mudança de discurso por parte do presidente vitalício do sindicato.

É um fato inegável que Eduardo Campos realiza uma política educacional baseada em pura ficção propagandística. É propaganda enganosa e nada mais. Por outro lado, outra ficção tem sido o sindicalismo praticado pela entidade representativa dos trabalhadores em educação.

Skull & Bones: A formação dos guerreiros retóricos – JFK, Vietnã, tumultos e a dinastia Bush

Terceira e última parte de uma pequena série que escrevi para o site Duplipensar. Publicado em 28 de março de 2005

Durante a presidência de John Fitzgerald Kennedy (a quem o historiador britânico Eric Hobsbawm qualifica como “o presidente mais superestimado dos EUA”), os irmãos de Yale desfrutavam de grande prestígio e influência. Diversos e experimentados bonesmen que integravam os mais próximos escalões da administração JFK constituíam também um grupo que adotou uma obcecada vontade de investir militarmente sobre o longínquo Vietnã. Era uma postura que contava com o desacordo da profética advertência do general Douglas MacArthur, conselheiro militar de JFK, que repetia a quem quisesse ouvir que era um erro o envolvimento dos EUA em uma guerra na Ásia. As conversas reservadas com MacArthur fizeram com que Kennedy tivesse sérias dúvidas a respeito de uma ação militar nas selvas chuvosas do país de Ho Chi Min, fato que o levou a protelar qualquer decisão a esse respeito. Sua morte, contudo, abriu caminho para que os intentos pela guerra fossem por fim executados por Lindon Johnson que fora o sucessor de JFK e, como muitos dos presidentes dos EUA, também teve nos arredores do Salão Oval uma forte participação de assessores da Skull & Bones.

De uma maneira geral, contudo, os bonesmen andavam divididos em relação à guerra. Dentre os descontentes estava McGeorge Bundy, que deixara o governo Johnson, passando a apoiar e financiar o movimento anti-guerra através dos fundos da Fundação Ford, entidade que então passou a presidir. Bundy, que integrou o “Jardim de Infância” de Henry Stimson, acabou tomando parte de uma ala de bonesmen a posicionar-se critica e combativamente contra a guerra do Vietnã, enquanto um outro segmento da irmandade mantinha-se aliado à noção de que a guerra deveria ser travada até o fim – embora o “fim” da guerra não tenha sido aquele que idealizavam. O tempo da geração de bonesmen formada ao redor de Stimson havia chegado ao fim quando Richard Nixon ascendeu ao poder e consagrou a eminência-parda encarnada na figura de Henry Kissinger em cuja atuação manteve uma barreira à influência da Skull & Bones dentro da Casa Branca. Ainda assim, há quem impute aos bonesmen, sempre atuantes nas instâncias da CIA, uma grande participação no processo de derrubada do Nixon através do escândalo de Watergate.

Gerald Ford assumiu a presidência após a derrocada de Nixon em 1974 e os bonesmen passaram a ensaiar o seu retorno. Kissinger e seus aliados começaram a perder espaço. James Schlesinger foi substituído por Donald Rumsfeld como Secretário de Defesa e William Colby, diretor da CIA, perdeu seu cargo para George Bush. Os bonesmen estavam mesmo tentando recompor suas tradicionais posições na Casa Branca, mas a eleição de Jimmy Carter, em 1976, impôs uma frustrante interrupção em seus planos. O retorno teve que esperar e ser procedido de forma lenta e gradual. Bush retornou às raias do governo como suplente presidencial do canastrão Ronald Reagan entre 1980 e 1984 e então articulou sua própria ascensão ao cargo de maior importância política do mundo. Juntamente com ele, a Skull & Bones retornou à Casa Branca de maneira tão confortável quanto nos tempos de Stimson.

Durante o governo de Bush I a velha Skull & Bones recompôs suas posições e executou um de seus principais passatempos – a guerra. Especula-se que a tática empregada na motivação da invasão ao Iraque em 1990 teve relação de semelhança ao que se dera na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial quando o Japão, segundo os analistas-especuladores, foi praticamente colocado na posição de ter que atacar os americanos em Pearl Harbor. O estratagema empregado foi lançar uma isca a ser fisgada pela presa. No caso da Guerra do Golfo a isca teria sido o Kwait, mas o propósito da guerra teria sido muito mais abrangente do que a simples defesa do país atacado pelo Iraque. Levou-se em consideração o domínio da região produtora de petróleo no Golfo Pérsico e também o controle dos preços desta preciosidade subterrânea no mercado internacional.

Nem tudo estava tão perfeito assim para os belicosos bonesmen de Bush I, afinal, democrata Bill Clinton sobrepujou o então candidato à re-eleição e impôs um novo intervalo na relação da Skull & Bones com a Casa Branca. O governo Clinton caiu em desgraça por razões não-políticas. Clinton, sua incansável libido e apreço por sexo com estagiárias escandalosas acabaram contribuindo para que os bonesmen encontrassem mais uma oportunidade de retornar ao poder. Os democratas tentaram manter-se no governo indicando o sem-graça Al Gore para suceder Clinton, mas o clã Bush e os republicanos ofereceram como opção um trapalhão George W. Bush, herdeiro político de Bush I. A eleição foi cômica e Bush II venceu sem ter vencido. Os bonesmen retornaram ao poder.

Bush II teve a oportunidade de lançar-se numa outra guerra e mais uma vez tomando um acontecimento dramático como estopim – o famigerado 11 de setembro – a desencadear toda a ação bélica capitaneada pelos mesmos intentos predatórios que consagraram a Skull & Bones. A guerra contra o terror, além da balela de encontrar as sempre inexistentes “armas de destruição em massa” sob o controle de Saddan Hussein – outrora aliado dos bonesmen da Casa Branca – foi empregada como justificativa ao ataque contra o Iraque numa repetição grosseira da guerra que já foi desenhada pelos arquitetos da primeira Guerra do Golfo.

Os democratas tentaram combater Bush usando “fogo contra fogo”, indicando o senador ex-combatente Jonh Kerry, um bonesman das fileiras anti-Bush, para disputa do processo sucessório pela Casa Branca. Tentou-se, talvez, instaurar um ambiente de divisionismo entre os bonesmen em torno do tema central da eleição – a guerra. A divisão entre os irmãos de Yale já havia sido evidenciada por ocasião da Guerra do Vietnã, quando os bonesmen anti-guerra posaram de heróis pacifistas, mas desta vez a eleição de Bush II, apesar da torcida contrária de boa parte da opinião pública internacional que se preze, acabou sendo mesmo inquestionável.

Bush II segue seu mandato rodeado por seus falcões e seus irmãos da Skull & Bones triunfantemente.

Skull & Bones: A formação dos guerreiros retóricos – Henry Stimson, um “mestre bonesman”

Segunda parte de uma pequena série que escrevi para o site Duplipensar. Publicado em 25 de março de 2005

 

George W. Bush é membro da Skull & Bones assim como seu pai, que também governou os EUA e meteu o país numa onerosa guerra no Golfo Pérsico. Bonesmen são tradicionais na família Bush, pois seu avô e um outro tio paterno também passaram pelo ritual de renascimento celebrado em Yale, logo, há de se perceber que a lógica que norteia as ações de Bush tem influências que partem de seu berço de constituição de valores – a própria família. O jovem George Walker Bush, portanto, já possuía um promissor retrospecto para integrar a entidade em cujas fileiras já militaram outros de seus entes relativos, isso além de ser um autêntico representante da ordem encarnada na noção de WASP.

A tradição da ordem Skull & Bones na Casa Branca não é recente. A ação política dos bonesmen manifestou-se de maneira a influir na adoção de caminhos que se coadunavam com o espírito e o código da Skull & Bones. O presidente William McKinley sofrera pressões da ordem em função de sua tímida postura de política externa. Sob pressão dos iluminados homens de Yale, seu governo decidiu adotar uma postura mais ofensiva frente às nações “inferiores” e, em 1898, agiu sobre Cuba, inaugurando uma já tradicional relação de amor e ódio entre as duas nações. Estava marcada assim uma fase expansionista sobre nações estrangeiras. Com a guerra contra os latino-americanos hispânicos a relação da Skull & Bones com o Partido Republicano teve também seu início. Na convenção republicana de 1900, os bonesmen ascenderam ao controle do partido e impuseram a McKinley a aceitação de Theodore Roosevelt como seu vice-presidente no pleito nacional que se aproximava. Em 1901 McKinley foi assassinado durante uma viagem pelo estado de Nova York e Teddy Roosevelt foi então conduzido ao governo dos EUA como primeiro bonesman a governar o país. Seu sucessor, William Howard Taft, também era seu irmão da Skull & Bones.

Uma grande referência política dentre os bonesmen foi o ideólogo e conselheiro Henry Lewis Stimson, cuja atuação e influência lhe valeram o título de “mestre bonesman”. Dizem que durante o processo de tomada de decisão pela invasão ao Iraque, em 1991, Bush I dedicou-se, na tranqüilidade do Camp David, a reler uma biografia de seu ídolo bonesman e enquanto seu conselho de analistas deliberava sobre a forma de ação contra o Iraque por ocasião da crise do golfo, quando o Kwait foi invadido por ordem de Saddan Hussein, o presidente já possuía uma posição formada e favorável ao ataque. Os ensinamentos de Stimson foram valiosos para esta decisão.

Stimson ingressou na Skull & Bones em 1888 e prestou seus serviços a sete dos ocupantes da Casa Branca: Theodore Roosevelt, William Howard Taft, Woodrow Wilson, Calvin Coolidge, Herbert Hoover, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, cumprindo uma sólida carreira de articulador, consultor e integrante do staff governamental estadunidense. Em seu legado de atuação está a supervisão do Projeto Manhattan, cujo resultado foi o desenvolvimento tecnológico e estratégico das bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki no final da Segunda Guerra Mundial. Anos antes, quando ocupava a Secretaria de Estado no governo Hoover (1929-1933), atuou nas articulações que impuseram a redução das forças ofensivas da Marinha Imperial Japonesa durante a Conferência Naval de Londres. Foi um dos arquitetos dos provocativos planos de restrições ao Japão que acabaram por influenciar o ataque que as tropas nipônicas fizeram contra a base estadunidense em Pearl Harbor, situação que provocou o ingresso dos EUA na guerra. Contanto pontos em seu currículo de serviços prestados, constam sua decisiva participação no desenvolvimento da idéia da criação dos campos de aprisionamento de japoneses e nisseis em território estadunidense durante o governo de Franklin Roosevelt, além de ter desenvolvido um plano, felizmente não executado, de bombardeio a Kyoto, um dos principais e tradicionais centros urbanos japoneses, como ultimato ao Japão pela rendição. Uma cartada de mestre atribuída a Stimson foi a decisão de preservar o trono do império japonês sob Hiroito, que não fora deposto por uma decisão estratégica que viabilizaria maiores condições de influência dos EUA nos planos de reconstrução e realinhamento do Japão no pós-guerra. Além de arquitetar o projeto de trilha a ser seguida pelo Japão derrotado, Stimson também teve forte atuação nos bastidores do plano de ocupação, reestruturação e ordenamento da Alemanha. A notável experiência de Stimson e sua visão utilitária do emprego da influência política e poderio militar dos EUA serviram como inspiração para Bush I, que decidiu levar a lição de seu mestre como ensinamento prático para sua decisão pela guerra contra o Iraque.

Diferentemente de seu discípulo presidencial, Stimson não provinha de um clã de bonesmen, ele ascendeu à ordem por “merecimento” e pelo reconhecimento de suas habilidades naturais e talento indiscutível pela atuação política pela grandiosidade dos EUA. Ele costumava creditar à Skull & Bones uma grande importância em sua formação e conforme seu biógrafo Geoffrey Hodgson, os tempos de vivência e aprendizado na entidade corresponderam “a experiência educacional a mais importante em sua vida”. Stimson foi admitido como bonesman mesmo sem ter origem rica, embora seus antepassados tenham sido alguns dos pioneiros puritanos na colonização dos EUA, ainda assim ele era um autêntico WASP. Em Yale seu espírito competitivo era uma de suas marcas a tal ponto que afirmava que “a idéia de um esforço para prêmios, foi sempre um dos elementos fundamentais de minha mente e eu mal posso conceber o que seria de meus sentimentos se eu fosse posto sempre em uma posição ou em uma situação na vida onde não houvesse nenhum prêmio pelo qual me esforçar”. Este espírito competitivo foi praticado também no extremo: já em uma idade amadurecida, aos 44 anos, Stimson aderiu ao Exército e tornou-se combatente na Primeira Guerra Mundial mesmo que já tenha acumulado experiência em sua vida na advocacia e no mundo da política em Washington e ganhou sua fama com o apelido sugestivo de “O Coronel”. O político e arquiteto de guerras experimentou a vida de combatente nas forças expedicionárias estadunidenses na Europa.

No período que antecedeu a Segunda Guerra Stimson comandava um batalhão próprio de bonesmen em Washington em seu Departamento de Guerra. O grupo chamado de “Jardim da Infância de Stimson” era composto pelo alto staff dos arquitetos da participação dos EUA na guerra O grupo era formado por personalidades como John McKoy, secretário-assistente de Estado e posteriormente comissário dos EUA na Alemanha pós-guerra, Robert Lovett era o assistente imediato de Stimson, com quem aprendeu a atuar nos bastidores da política até tornar-se um dos principais e influentes assessores de John Kennedy, Harvey Bundy, outro de seus assessores de primeira linha, era um bonesman fiel ao seu líder e juntara ao grupo dois de seus filhos, McGeorge e William Bundy, também bonesmen, à equipe de assessores e coordenadores de guerra sob o comando de Stimson. O “Jardim de Infância” também era integrado por Dean Acheson, também um de seus preferenciais assistente e futuro conselheiro e Secretário de Estado no governo Truman (Acheson não era bonesman, mas era membro de outra fraternidade secreta de Yale – Skroll & Key) e contava ainda o grupo com a participação do general George Marshall, chefe de comando do Exército durante a Segunda Guerra e também futuro Secretário de Estado de Truman. Este grupo de ideólogos da atuação estadunidense na guerra teve seu núcleo conhecido como “Círculo Stimson-Marshall- Achelson” e seus integrantes eram figuras-chave do staff político durante a guerra e também no processo de implementação dos planos de reconstrução e alinhamento do pós-guerra como iniciadores das estratégias de isolamento do bloco soviético, sendo então pioneiros na estratégia de implantação da Guerra Fria, incluindo o processo fomentador da intromissão militar estadunidense na Coréia.

Stimson morreu em 1950, contudo, sem conseguir levar adiante a influência de seu grupo sobre a condução política da Casa Branca e seus discípulos do “Jardim de Infância” foram aos poucos tendo sua influência declinada. Já em 1947, com a Lei de Segurança Nacional, o Departamento de Guerra fora reestruturado como Departamento de Defesa, constituído por uma burocracia civil que viria posteriormente a abrigar muitos membros da Skull & Bones e Robert Lovett, por exemplo, viria a assumir o comando do Departamento em 1950. A lei de 1947 também criou a CIA (Central Intelligence Agency) como organismo que sucederia o núcleo de estratégia (OSS – Office os Strategic Service) que vigorava durante o período da guerra e posteriormente as atribuições do grupo de coordenação política que também funcionava sob o comando de Stimson passaram a ser exercidas pela CIA. A Agência de Segurança Nacional (NSA) também foi criada neste período subordinada também ao Departamento de Defesa, ampliando o espectro da rede de controle e investigação do Estado. Estas agências tornaram-se redutos de atuação de bonesmen ao ponto em que a imagem da CIA e da Skull & Bones passaram a ser freqüentemente associadas uma a outra.

A forte influência dos bonesmen na estrutura da CIA é apontada como um dos legados de Henry Stimson, pois o OSS, organismo antecessor da CIA, fora inicialmente constituído por quadros técnicos e funcionais forjado na Skull & Bones e esta relação entre os “iluminados” de Yale e o serviço secreto institucional permaneceu ativa.

Ainda que tenha ocorrido um período de crise na atuação orgânica da Skull & Bones durante as décadas de 1960 e 1970, a sua influência foi sendo aos poucos restaurada ao ponto em que voltou a ser relevante durante as gestões dos dois presidentes Bush, discussão que será abordada na terceira e última parte desta série de artigos.

Skull & Bones: A formação dos guerreiros retóricos – O Código e a Academia do Poder

Primeira parte de uma pequena série que escrevi para o site Duplipensar. Publicado em 22 de março de 2005

 

Em New Haven, cidade estadunidense localizada no estado de Connecticut, funciona um dos mais respeitáveis centros universitários do mundo, a famosa Yale University. Instituições de ensino como Yale tradicionalmente respondem pela formação universitária da elite dos EUA e não há de ser estranho para ninguém a evidência de que muitos dos egressos da universidade acabem constituindo-se como notáveis figurões das ciências, da política ou também das artes de fazer dinheiro, afinal, além da altíssima e qualificada formação obtida, um diploma emitido por Yale confere status, respeitabilidade e até poder ao seu felizardo contemplado. Além de suas qualidades acadêmicas, em Yale ronda um mistério em torno de uma enigmática instituição estudantil. A irmandade acadêmica Skull and Bones é mais que um grupo de afiliação estudantil, trata-se de uma verdadeira ordem secreta cuja atuação suscita especulações das mais diversas e alimenta uma mística que vai muito além do campus, atingindo patamares tão amplos quanto insólitos a exemplo das maquinações pela ação do governo dos EUA sobre o Golfo Pérsico. O fato é que os integrantes efetivos e afetivos da Skull & Bones, os bonesmen, atuam de maneira a alimentar a mística e a preocupar os especuladores e propagadores das teorias de conspiração.

A Skull & Bones é um bastião da elite estadunidense, reduto da tradição cultural e política da fração protestante branca e anglo-saxã (a velha identificação conhecida formalmente nos EUA como WASP – White Anglo Saxon Protestant). Sua reputação é muito mais significativa que das demais agremiações secretas que funcionam em Yale (Scroll & Key, Book & Snake, Wolf’s Head, Eliahu e Berzelius), todas, contudo, seletas ordens elitistas que recrutam para os seus quadros os indivíduos mais promissores da universidade. Em termos competitivos, provavelmente, a única entidade de Yale capaz de impor uma concorrência à Skull & Bones é a Scroll & Key, e, em termos atuais, ambas possuem, respectivamente, identificações predominantes ao Partido Republicano e ao Partido Democrata, reproduzindo a polarização entre conservadores e liberais. Harvard e Princeton, que formam juntamente com Yale o grupo de elite das instituições superiores dos EUA, também possuem suas influentes ordens secretas, contudo, nenhuma delas possui tamanha atuação efetiva pelos subterrâneos e superfície da política estadunidense.

Desde sua fundação, em função da alta seletividade da Skull & Bones, que recruta anualmente apenas 15 membros, cerca de 2.500 bonesmen tiveram o privilégio de ostentar tal identificação e hoje em dia há em torno de 600 deles vivos, mas em geral ocupando importantes posições. Tradicionalmente não eram admitidos na ordem membros que não preenchessem os requisitos elementares prescritos pela composição daquilo que se compreende como critérios para a identificação da classificação social elitista da facção WASP da sociedade estadunidense, mas os ventos liberais e a política da inclusão forçaram a admissão de judeus, negros e também de descendentes de estrangeiros bárbaros, afinal, já há bonesmen de ascendência chinesa. Este é um sinal de modernidade que é enriquecido pela mais recente iniciativa de admitir a afiliação de homossexuais. Mas, apesar destas concessões liberais, a Skull & Bones mantém critérios seletivos quanto ao universo de candidatos a prováveis irmãos de ordem. Um requisito inicial é a própria educação secundária, pois há preferência por candidatos egressos de tradicionais e prestigiosas High Schools que atendem exatamente a jovens abastados. Além do mais, a seleção leva em consideração a vivência aventureira do candidato. Pretendentes que já ousaram a enfrentar selvas africanas, intempéries sul-americanas, desertos e riscos eminentes no Oriente conquistam valiosos pontos nesta fase de pretensão à filiação. Os candidatos são criteriosa e severamente avaliados pelos membros sênior da ordem e submetidos a testes e entrevistas que buscam aferir as potencialidades e capacidade integrativa dos candidatos ao corolário e ideário da Skull & Bones.

Especula-se que a Skull & Bones inspira-se na tradição maçônica européia (altamente influente no Brasil do Século XIX). Sua cerimônia de iniciação é marcada por uma simbologia mórbida, mas curiosa. Os iniciantes, despidos, deitam-se num caixão que é carregada pelo salão da sede da irmandade. Eles reverenciam a insígnia da ordem (um crânio sobre dois ossos cruzados acima da inscrição “322”, alusiva ao ano de 322 a.C., ano em que a deusa Eulogia apareceu no céu após a morte de um orador grego. A crença diz que ela retornaria em 1832) e depois saem do ataúde mortuário como sinal de que estão marcando seu renascimento para um novo mundo iluminado, guardando, cada um, em um local específico, um osso entalhado com o nome dos novos iniciados. O ato cerimonial de iniciação é cercado por gestos e atos simbólicos que inspiram controvérsias e polêmicas – dizem que o velho Prescot Bush, pai do ex-presidente George Bush e avô do atual presidente dos EUA, George W. Bush, todos eles bonesmen, usurpou o túmulo do legendário herói indígena Jerônimo para roubar seus ossos, que teriam servido para um dos rituais da ordem secreta. Dizem mais que as controvertidas histórias sobre os rituais da ordem são também alimentadas pelos próprios integrantes do grupo para manter o mistério a respeito das atividades ritualísticas desenvolvidas na cripta da Skull & Bones no campus de Yale.

Rituais à parte, o fato é que os bonesmen assumem o compromisso de seguir determinados princípios como a dedicação ao engrandecimento da nação conforme o receituário prescrito pelo treinamento ideológico prestado pela ordem. Mas eles lançam mão de certos artifícios retórico-discursivos nos quais são instruídos e hábeis para exercer suas atribuições segundo os ideais da Skull & Bones. É este o caso do emprego deliberado da discrição quase enigmática quanto a exposição de seus intentos e a ambigüidade normalmente presente nas peças retóricas expressas pelos irmãos de Yale. Mas engana-se quem imaginar que estas características retóricas são defeitos no processo de construção e apresentação dos pensamentos e atos elaborados por estes hábeis praticantes, pois os bonesmen são habituados a praticar seus métodos de discrição e ambigüidade como instrumentos de exercício do controle e domínio (fundamento que chamam de “wielding”). Aquilo que um bonesmen fala é marcado por noções subliminares que normalmente não ficam claras para um interlocutor desavisado.

O processo didático da construção de um bonesmen é sutil e decisivo. Nos tempos de academia, um bom integrante da Skull & Bones precisa exercer atividades desportivas com finalidades relativas ao exercício das habilidades de liderança, pois um bonesmen é, antes de tudo, um líder. Não há de se estranhar que dois dos esportes populares nos EUA, o baseball e a sua versão de futebol inspirada no rugby inglês são experimentos desportivos engendrados por bonesmen. Em esportes coletivos o processo de aprendizagem das competências dos irmãos de Yale é bastante exercido. O bonesmen Gorge Bush pai, embora não tenha sido um habilidoso jogador de baseball, foi capitão da equipe universitária de Yale. Guiar equipes e comandar vitórias é uma habilidade comum aos esportes coletivos, mas também é uma capacidade fundamental em uma espécie mais drástica de competição: a guerra. Nos ensinamentos difundidos no processo de formação da Skull & Bones admite-se que embora as idéias tenham a capacidade de transformar verdadeiramente a história, quase sempre a guerra acaba sendo empregada para realizar este fim.

A Skull & Bones difunde um código de postura, conduta e filosofia que bem representam o senso puramente WASP do segmento elitista dos EUA. Mas este código não é universal, ao contrário, é segmentado exatamente porque é elitista. Quando comparamos códigos, o que vemos na Skull & Bones é bem distinto daquilo que se percebe, por exemplo, nas normas de conduta do código samurai do Bushido japonês, que valoriza a honra entre os guerreiros contendedores e preconizou uma visão eminentemente ética e moral do mundo. O código Skull & Bones preconiza a noção de que aquilo que não representa é algo simplesmente inferior, isto é, a própria relação à excludente identificação do segmento da elite que representa (uma elite dentro da identificação WASP) por si já determina a diferença entre os dois códigos.

A visão Skull & Bones na política estadunidense é de notável influência, já que muitos de seus integrantes tomaram parte da vida pública do país desde os idos dos fins do século XIX. Esta visão típica dos bonesmen sobre a condução dos EUA não é assunto que deixe de merecer ser notado, sobretudo, quando mais um de seus pares ocupa a presidência do país, após uma reeleição disputada contra um adversário que também ostenta a condição de irmão da ordem de Yale (assim como Goerge W. Bush, o democrata John Kerry também foi forjado nas fileiras da Skull & Bones). Este aspecto político ocupará a abordagem da seqüência do presente artigo, quando a relação entre a ordem Skull & Bones e a Casa Branca vier a ser discutida e especulada.


Como assim???

Remoalho é aquele bolo alimentar que os ruminantes fazem retornar à boca para ser remoído. O blog é coisa parecida, pois o ruminante autor fica remoendo notícias, impressões, especulações e produzindo eventuais comentários sem relevância. Ou seja, um blog praticamente normal.

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Paulo Alexandre Filho
é professor da nobre ciência histórica, que - por sua vez - não deixa de ser remoalho também!
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